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Silva Silva
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No quarto encontro do Programa de Mestrado estávamos o Mestre Márcio (Moy Si Ou), o Mestre Antunes (Moy Shan Si), o Mestre Guilherme (Moy Faat Lin), eu (Moy Chi Yau Si) e o Si Fu. A ideia da noite era avançar no capítulo do Sistema Ving Tsun, mas o Si Fu aproveitou para aprofundar sobre a estrutura do livro que cada um de nós está escrevendo.

A arquitetura do livro

São nove capítulos, pensados para que os livros sejam comparáveis entre si. Introdução, três capítulos objetivos, três subjetivos, um sétimo com o título de cada autor, e a conclusão.

Os três objetivos são Kung Fu, Sistema e Sistema Ving Tsun. Têm definição, tradução, ideograma. O Si Fu insistiu que o capítulo do sistema Ving Tsun provavelmente é o mais extenso dos três: o mínimo é do tamanho do capítulo de Kung Fu, mas há material para muito mais. Basta pegar uma parte do Siu Nim Tau, dividir em três, e já se tem matéria para um capítulo inteiro.

Os três subjetivos são Vida Kung Fu, Família Kung Fu e Genealogia. Aqui cada um pode dizer uma coisa diferente, e o Si Fu vê isso como riqueza. Onde o sistema é tangível, a vida Kung Fu é subjetiva: o que foi de um jeito para mim pode ter sido outra coisa para você.

O Si Fu anotando durante o encontro.

Por que escrever

O Si Fu parou para uma pergunta: por que dividimos o mundo em pré-história e história? Ele mesmo respondeu: porque em algum momento passou a haver registro escrito, e o registro virou o critério que separa os dois.

Para o Si Fu, a escrita força critérios que a fala dispensa: definição, ordem, compromisso com o que fica registrado. Ninguém precisa virar escritor, mas vale entender a quase obsessão do nosso Kung Fu por esse tipo de registro. A ideia conversa com o que já anotei sobre escrever como forma de não morrer.

O capítulo do sistema

Depois da estrutura, cada um apresentou seu recorte do sistema, e o Si Fu foi pontuando.

O Mestre Márcio resumiu o Ving Tsun como um sistema corporal de combate simbólico, seis domínios transmitidos em três fases: estruturada, semiestruturada e não estruturada. Si Fu destacou uma palavra: independente. Márcio comentou que os domínios funcionam de forma independente; são interdependentes, conectados. O que caracteriza um sistema é a interconexão das peças: a posição que se desenvolve no Siu Nim Tau é o que permite a variação do Cham Kiu. Uma prepara a outra. No mesmo espírito, trocou “estático” por estacionário no Siu Nim Tau.

O Si Fu observou que na fala nos permitimos um descompromisso que a escrita cobra.

O Mestre Guilherme começou pela história e pelo nome do sistema. O Si Fu cortou: isso é genealogia, entra no capítulo próprio. No capítulo do sistema, o foco é o sistema. Sobre o nome, problematizou tomar “Ving Tsun” como o nome da fundadora. Para ele soa mais como nome de família ou nome iniciático, e deixou em aberto, lembrando que nunca tinha escutado dessa forma, o que não quer dizer que esteja errado.

O Si Fu deixou dois apontamentos extras para todos nós. Segundo ele, “Domínio” e “território” são termos da família Moy Yat; as fases estruturada, semiestruturada e não estruturada vêm da família Moy Yat Sang. Não são universais do sistema. Podemos usar, desde que saibamos de onde vêm. E “sistema chinês”, no nosso jargão, é o Hai Tong: um sistema baseado em lista em que a ordem dos elementos é essencial. Uma receita de bolo é uma lista onde a ordem dos ingredientes não importa; o Hai Tong é o oposto, trocar a ordem muda o sistema.

Genealogia: crença e função

O Si Fu abriu a genealogia com uma afirmação direta: ela é registro de crença e função, sem pretensão de verdade. Não temos como provar a linhagem. O que cada um consegue provar é que aprendeu aquela sequência do seu Si Fu, e que o Si Fu aprendeu do dele, e assim por diante.

Ele abriu o próprio nome para explicar. Jo (祖) é ancestral. Lei (利) ele traduz por honrar, embora no dicionário o caractere apareça como vantagem, sagacidade, tenacidade. Honrar foi a tradução que recebeu de quem lhe deu o nome. E honrar os ancestrais, disse ele, não é só olhar para trás. Não existe ancestral absoluto: cada um é ancestral de quem vem depois. Gerar esse material, escrever esses livros, é uma forma de honrar quem vem depois.

Aí ele contou, pela primeira vez na família, a história do quadro com a sequência do Gwan que estava na parede do antigo núcleo Barra. Segundo o Si Fu, numa viagem a Nova York por volta de 1990, escolheu uma pulseira de jade que agradou o Si Taai Gung. Em retribuição, ele lhe entregou um quadro, tomou de volta ao perceber que a ordem estava invertida, e deu outro, com a sequência correta.

Sobre o alcance, o Si Fu deu liberdade: cada um decide até onde pesquisa. A linhagem inteira, ou só as gerações com que teve contato direto, a partir do Si Gung.

Os participantes do encontro na chamada: o Si Fu escrevendo, o Mestre Guilherme, o Mestre Márcio, eu e o Mestre Antunes.

A liberdade do sétimo capítulo

O sétimo capítulo é o espaço de cada autor. Foi ali que o Mestre Antunes leu o sistema pelos pronomes: eu, tu, ele na parte física e intrapessoal; nós, vós, eles nas famílias, nas cerimônias, no público de fora. O Si Fu gostou e usou o exemplo para falar de liberdade.

O sétimo capítulo é onde se pode, inclusive, desdizer as separações que o próprio Si Fu propôs. A condição é ter entendido a proposta antes. Para o Si Fu, processar o que se recebe e devolver algo próprio é um gesto de respeito.

Ele fez uma distinção fina sobre onde cabe essa autenticidade. Falando para discípulos de outros mestres, quanto mais diferente for a contribuição, melhor, porque não somos nós que formamos aquelas pessoas. Dentro da própria família, a responsabilidade é outra, porque o que se diz ali fica.

O sistema como iniciação

Na minha vez, apresentei o Ving Tsun como sistema iniciático de desenvolvimento de Kung Fu, estruturado a partir de uma família. Vai além do sistema corporal de combate simbólico. O corpo é o caminho mais direto para desenvolver Kung Fu. Há quem não tenha o corpo como mecanismo. Se o sistema fosse só as listas, bastaria passar a lista, e não basta: sem a relação familiar, ninguém recebe a chave para lê-la. Por isso o sistema nasce quando o nome passa de um para outro, individualmente.

Daí a conversa foi parar na expressão “arte marcial”. Fui atrás da origem do termo. O primeiro registro ocidental de 功夫 é de Amiot, jesuíta francês em Pequim, em 1779. Ele descreveu o Cong-Fou como ginástica médica taoísta, não como prática de combate. O general Ming Qi Jiguang já considerava, no século XVI, o combate desarmado inútil no campo de batalha, útil só para condicionar as tropas e construir confiança. Para mim, “marcial” remete a Marte, palavra de guerra, e descreve mal o que fazemos.

Para o Si Fu, o motivo é deixar registro para a próxima geração.


T L Si - Thiago Silva
Moy Chi Yau Si
梅 知 友 士