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Silva Silva
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Sucesso gera escala. Escala gera complexidade. Complexidade gera burocracia. Os mesmos mecanismos que protegem uma organização do caos também a protegem da mudança. RT Comentado 56, sobre o Manual de Sabotagem Simples da OSS (1944)

Ouvi recentemente um episódio sobre o Manual de Sabotagem Simples, um documento secreto de 1944 produzido pelo OSS, o antecessor direto da CIA. O manual ensinava cidadãos comuns em territórios ocupados a destruir organizações inimigas por dentro. Sem bombas, sem armas. Só sendo incompetente de propósito. A genialidade do documento não estava em ensinar pessoas a destruir organizações. Estava em reconhecer que organizações se destroem sozinhas. Os sabotadores só deram um empurrãozinho na entropia.

Isso me lembrou uma constatação minha já de muito tempo: pelos idos de 2010, a Apple nos proporcionou o Antennagate. Uma das versões do iPhone simplesmente ficava sem sinal quando você segurava o aparelho. O Jobs, na maior cara de pau, falou que as pessoas é que não seguravam o aparelho de forma adequada.

Eu já trabalhava com tecnologias Microsoft fazia uns 10 anos e os problemas eram periódicos. Toda versão ou atualização do Windows tinha uma surpresa oculta, de forma que usuários demoravam muito a adotá-las.

Quando vi essa pataquada da Apple comentei com o Si Fu: “Parece que há um limite para o tamanho das organizações. Após determinado número elas começam a tropeçar nas próprias pernas e estão fadadas a fracassar. Parece que não há sistema capaz de corrigir isso.”

As duas melhoraram um bocado nos anos seguintes, porém de tempos em tempos temos o mesmo comportamento: hoje a Siri na Apple é inútil, mas os celulares melhoraram de maneira geral (o que virou um problema, todos os iPhones depois do 13 são praticamente a mesma coisa). A Microsoft lançou o Windows 11, que é um sistema operacional bem decente, porém o ciclo atual de atualizações (primeiro semestre de 2026) chega a doer de tão ruim.

Até hoje não descobri qual seria esse tamanho máximo de organizações. Li alguns artigos de psicologia social que sugerem que pessoas não conseguiriam gerenciar mais do que 150 relações. É o chamado número de Dunbar: Robin Dunbar, antropólogo de Oxford, cruzou o tamanho do neocórtex de primatas com o tamanho dos grupos sociais e extrapolou para humanos. Caiu em 148, arredondado para 150.

Podemos extrapolar a lógica: um líder “controla” 150 pessoas, que controlam outras 150… o número seria infinito se a doutrina, a cultura organizacional, fossem na mesma direção.

Vista aérea de Dubai. Foto: David Rodrigo / Unsplash

Qual a maior empreitada humana?

O Walmart é o maior empregador privado do mundo com 2,1 milhões de funcionários. É mais gente do que a população de muitas capitais. O segundo maior é a Amazon, com 1,5 milhão.

Vamos pensar no que sobrevive ao tempo, coisas que têm importância:

Ao pesquisar monumentos, me frustrei ao descobrir que as pirâmides provavelmente não empregaram mais do que 20 a 30 mil trabalhadores (sim, trabalhadores, não há indícios de que fossem escravizados). Duas obras chinesas se destacam: a Grande Muralha da China, com 1 a 3 milhões em cada dinastia, e o Grande Canal da China, com estimativa de até 5,5 milhões.

Números mais interessantes, mas ainda pouca gente trabalhando para um fim comum.

Seguindo no aumento de importância: guerras. Os EUA mobilizaram 16 milhões de pessoas durante a Segunda Guerra. A Alemanha, 18 milhões. A União Soviética, quase 35 milhões. Mas exércitos são temporários. Acabou a guerra, desmobilizou. As guerras são muitas vezes proporcionadas por estados-nações grandes demais para se conterem.

No quesito Estados, os números começam a ficar mais apresentáveis: o governo britânico emprega quase 6 milhões de pessoas no setor público para 67 milhões de habitantes, um funcionário para cada 11.

Os Estados Unidos da América, cerca de 24 milhões somando federal, estadual e municipal para 335 milhões de habitantes, um funcionário para cada 14.

No oriente, a Índia, com seus 8 milhões de funcionários federais e estaduais (e 1,2 milhão só nas ferrovias), administra 1,4 bilhão de pessoas num sistema que celebra o caos como método.

A China novamente se destaca: somando o funcionalismo público e as empresas estatais, são mais de 56 milhões de pessoas. Se incluirmos saúde e educação pública, passa de 80 milhões. Um em cada quatro trabalhadores urbanos chineses trabalha para o Estado.

Num podcast sobre pensamento chinês, o professor Sinedino lembrava que a Índia busca a eternidade e o transcendente, enquanto a China busca a realidade. Duas civilizações que administram mais de um bilhão de pessoas cada, com direções diferentes mas a mesma preocupação: como as ações reverberam para gerações posteriores.

Grande Muralha da China. Foto: Christian Weinberg / Unsplash

Os chineses e seus 27 mil

A dinastia Qing administrava quase 400 milhões de pessoas com algo entre 20 e 35 mil funcionários civis de carreira, ou seja, em torno de 27 mil burocratas para um império de 400 milhões. A proporção é de um funcionário para cada 14 mil habitantes (qual foi o neoliberal que falou que o estado mínimo é mais eficiente mesmo?).

O instrumento era o sistema de exames imperiais, o keju (科舉, literalmente “selecionar por exame”). Estabelecido em 605 d.C., abolido em 1905. Mil e trezentos anos de operação contínua. Na dinastia Ming, apenas 90 pessoas por ano recebiam o grau máximo de uma base de milhões de candidatos. Uma taxa de aprovação que faz qualquer vestibular parecer brincadeira.

O keju não selecionava competência técnica. Selecionava domínio dos clássicos confucianos. Era uma máquina de alinhamento cultural. O sistema compensava a burocracia mínima delegando para estruturas locais: clãs, anciãos de aldeia, shēnshì (紳士, a elite letrada local). Não chegavam a ocupar cargos imperiais mas detinham prestígio e autoridade na comunidade. Uma governança fractal onde o centro definia a doutrina e a execução era local.

Parthenon, Atenas. Foto: Spencer Davis / Unsplash

Por que a cultura não colhe frutos no ocidente?

Um dos pontos que parecem centrais ao pensamento ocidental é a cultura do embate de ideias. A dialética para os marxistas seria a evolução por meio de contradições. Sócrates já defendia essa prática, passou por Kant, Hegel até essa definição de Marx: discutir para chegar em outro ponto, questionar até exaurir possibilidades.

As contradições produziram coisas extraordinárias. O método científico é filho direto delas: hipótese, teste, refutação. A revolução industrial nasceu de gente que questionou como as coisas eram feitas. A democracia ateniense, o iluminismo, os direitos individuais, tudo isso brota de uma cultura que valoriza o embate de ideias. O ocidente se movimenta abruptamente justamente por destruir o que construiu ontem.

Na forma rudimentar, questionar é apenas negar a ideia do outro. Negar sem critérios ou sem adicionar algo em contrapartida apenas leva a conversa para uma espiral descendente, um niilismo absoluto. Uma criança que nega o tempo todo e por fim quebra o próprio brinquedo para não ter que dividi-lo com ninguém.

O problema é que o brinquedo agora já está em escala planetária e rumo ao colapso.

Foto: Daniel Tischer / Unsplash

Outras formas de se organizar

Se falamos de culturas milenares do oriente, podemos também olhar para o extremo ocidente. Talvez a maior obra humana já realizada e que pouco é reconhecida: a terraformação dos biomas nas Américas.

Do Alaska à Terra do Fogo, os povos originários desse grande continente modificaram o ambiente segundo as suas necessidades.

Há fortes indícios de que a Amazônia e o Cerrado foram intencionalmente plantados. Espécies domesticadas são cinco vezes mais dominantes perto de sítios arqueológicos na Amazônia.

A terra preta de índio, solo fértil criado por atividade humana sustentada, cobre até 154 mil km² da bacia amazônica. O Cerrado teve seu mosaico de vegetação mantido por milênios de manejo indígena com fogo. Literalmente cultivados, no sentido mais basal de uma cultura.

154 mil km²? Acho que posso aceitar como maior empreitada humana.

Ailton Krenak, ao ser questionado sobre o fim do mundo, se dizia confortável: o povo dele passou pelo fim do mundo cinco séculos antes, com a chegada dos europeus, e segue persistindo. A pergunta dele era como os brancos iriam se virar diante do próprio apocalipse autoimposto.


Devaneios para outro dia desses, nem falamos de árabes, persas e africanos… 😄

O mais importante é que existem infinitas formas de se organizar no mundo, nenhuma das sustentáveis pressupõe o confronto infinito 🤔

T L Si - Thiago Silva
Moy Chi Yau Si
梅 知 友 士


Fontes

  1. RT Comentado 56, Manual de Sabotagem da OSS [podcast]
  2. #113, Pensamento Chinês, Giorgio Sinedino [podcast]
  3. Neocortex size as a constraint on group size in primates — Dunbar, R. I. M. (1992) , Journal of Human Evolution 22(6) [paper]
  4. Lectures on the History of Philosophy, seção sobre Sócrates — Hegel, G.W.F. (1826) [book]
  5. The Poverty of Philosophy, Cap. 2 — Marx, Karl (1847) [book]
  6. dialectic , Online Etymology Dictionary [article]
  7. Ideias para adiar o fim do mundo — Krenak, Ailton (2019) [book]
  8. Walmart employees , Stock Analysis [article]
  9. China public sector employment , Chinascope [article]
  10. SOEs na China , World Bank [article]
  11. Indian Railways [wiki]
  12. Imperial examination (keju 科舉) [wiki]
  13. Gentry (China) (shēnshì 紳士) [wiki]
  14. UK Public Sector Employment , ONS [article]
  15. US Federal Employment Reports , OPM [article]
  16. Qing government , Columbia Asia for Educators [article]
  17. Who Built the Pyramids? , Harvard Magazine [article]
  18. Les papyrus de la Mer Rouge I: Le journal de Merer — Tallet, Pierre (2017) [book]
  19. Anthropogenic Dark Earths in Central Amazonia — Glaser, B. & Birk, J.J. (2012) , Geochimica et Cosmochimica Acta 82 [paper]
  20. Persistent effects of pre-Columbian plant domestication on Amazonian forest composition — Levis, C. et al. (2017) , Science 355(6328) [paper]
  21. The Use of Fire in the Cerrado and Amazonian Rainforests of Brazil — Pivello, V.R. (2011) , Fire Ecology 7(1) [paper]
  22. 1491 — Mann, C.C. (2002) , The Atlantic Monthly [article]
  23. Foto cover: Shino Nakamura , Unsplash [other]
  24. Foto Grande Muralha: Christian Weinberg , Unsplash [other]
  25. Foto Parthenon: Spencer Davis , Unsplash [other]
  26. Foto Dubai: David Rodrigo , Unsplash [other]
  27. Foto indígena: Daniel Tischer , Unsplash [other]