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Silva Silva
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O texto abaixo nasceu de uma troca de mensagens com o Henrique Jardim no dia 1 de março de 2026. Editei pouca coisa para publicar aqui. O tom é de conversa mesmo.


Já entendi a questão do burnout com agentes de IA. Além do júnior fazendo merda, você fica o tempo todo respondendo perguntas para ele.

Não há condições de ativar o skip-permissions desses agentes. Eles erram em tudo: coisas básicas, decisões idiotas.

Pedi para um pesquisar uma coisa, estava demorando, perguntei por que. Estava usando o MCP do Obsidian e varrendo nota a nota. Falei para fazer um grep e foi instantâneo.

Falta “feeling”. Acho que é uma barreira instransponível nesse modelo de LLM.

Porém ele demora nas respostas (e sempre vai demorar). Acabamos fazendo várias coisas ao mesmo tempo. É fácil chegar ao final do dia exausto sem notar. Estava assim na sexta à noite. No carro a caminho de Matosinhos, me peguei resolvendo uma questão técnica que estava me intrigando. Quando me liguei, parei para ouvir música.

Dito isso, como ferramenta de trabalho, acho que é uma revolução talvez maior que orientação a objetos ou IDEs. A empresa que conseguir pagar para ter acesso sempre vai ter uma vantagem competitiva.

Às custas de burnouts? Até os programadores aprenderem a usar, e os gestores entenderem o que esperar, vai haver um moedor de carne grande pela frente. Orientação a objetos surgiu nos anos 60-70 e só ganhou tração uns 20-30 anos depois. Estamos diante de um fenômeno parecido. IDEs (Delphi, Pascal, VB…) custavam um rim. Os programadores eram caros, ninguém tinha acesso ao tooling, então quem sabia usar valia ouro ou era preciso treinar internamente. Como o Altman coloca num vídeo recente, o empresário não valoriza essa aposta.

A orientação a objetos só existe por causa disso: porque o programador pode ser alienado do próprio trabalho. Dá muito mais trabalho fazer um software ou um sistema integrado, com taxonomia, em que qualquer um possa se achar rápido. Dá trabalho fazer algo que possa ser mantido por um bom tempo.

Alguém publicou um vídeo sobre programadores “gado”. É o tipo de gente que essas empresas adoram contratar. O problema para o Vale do Silício é que as duas coisas andam juntas: se o camarada é bovino na vida, ele é ruminante no código. Se é um pouco mais inteligente, vira rock star e eles se ferram.

Preciso ver como jovens sérios estão usando isso. Além do vibe coding, quero ver casos reais, com as devidas responsabilidades, com software feito para durar um pouco mais. Eu era um jovem sério lá nos 2000, antevi a popularização da OO, a explosão de sistemas web, Ruby on Rails, mobile (enquanto o Ballmer fazia piada, eu tentava fazer PWA), microservices… Não acho que eu tenha essa jovialidade para enxergar além dos hypes de cada momento. Estamos velhos, Xavier, já dizia o Magneto.

Estrelas descartáveis

Fazendo um paralelo artístico, o cinema e a música “resolveram” esse problema. As estrelas de hoje são as mesmas de trinta anos atrás. Eles estão ativamente sabotando todos os que podem ser estrelinhas (olha o Tom Holland, o Shia LaBeouf). A música é descartável. É curioso ver a minha geração batendo 30 anos no Spotify e se orgulhando, enquanto a da Layla bate 70 e se orgulha também. Conheço três pessoas na faixa de 15 a 25 que bateram essa marca. É anedótico, mas vendo TikToks e Reels por aí, não é incomum.

Nunca tivemos grandes estrelas na programação. O Linus (ele não ajuda) é talvez uma das pessoas mais geniais que já passaram pela Terra. O mundo roda nas ideias dele (Git + Linux) e ninguém nem sabe que ele existe. Stallman, Wozniak, Gates, Paul Allen foram expulsos das próprias empresas… Estrelas da programação já são descartáveis faz tempo.

Minha dúvida é: o software vai passar a ser descartável também?

Todo mundo concorda que o software de hoje não é melhor. Para o usuário, para o custo, para a performance. Em qualquer critério de avaliação, o software de hoje é pior.

Software descartável

Quando as ferramentas de IA se popularizarem, o software será descartável como aconteceu com a música. Qualquer um vai poder fazer um “Facebook” para chamar de seu, sem a devida escala (sendo que é um monte de número de mentira essa “escala”). O Gabs Ferreira acabou de fazer um fórum para ele (VibeCoded) e desligou o Discord. Vamos ver toda empresa média ou grande criando seus próprios “currais”, com software próprio, para não depender de terceiros e ter controle total.

A questão é quando. Veremos isso ainda no nosso tempo de vida útil? Serão 30 anos, como ocorreu com a orientação a objetos, ou apenas 10 ou 15 como foi para a web?

Como nos posicionar? Não tenho dúvida de que é uma bolha. Depois da bolha, quem sobrevive fica melhor. Porém não acho que faremos frente a jovens motivados, morando com os pais, cobrando o mínimo para sobreviver. Todas as bolhas são assim: no início, jovens fazem merda, mas resolvem. Vira negócio, então eles entregam para os velhos cuidarem.

Quais são os princípios que vão nortear a próxima leva de software? Qual perfil terá o “velho” valorizado (velhos nós seremos) daqui a 5-8 anos? Escala e performance estão sendo ignorados: preferem pagar à Amazon, Microsoft, Google do que pagar programador. Qual é a skill para o próximo momento? Estou apostando em pensamento sistêmico (essa sempre foi minha aposta desde que conheci o Ving Tsun no início do século).

O século do software

Para empresas, o software já é semi-descartável. É melhor reescrever tudo a cada 3 ou 5 anos; sempre tem um microsserviço que ninguém sabe o que faz direito. O Google cria e mata produtos o tempo todo. Imagina quando toda empresa puder fazer o que o Google faz? Greenfield forever? Toda hora começa uma coisa nova e deixa o entulho para trás? (Alô, Microsoft!)

O problema da escala acaba quando qualquer um puder ter seu próprio YouTube, seu próprio Facebook. Não estou falando da questão social. Estou falando da complexidade de manter a infra desses projetos. Imagina que você paga uma empresa para arrumar seus vídeos e, de repente, consegue numa semaninha fazer um software que resolve isso. Eu, por exemplo, achei que pagaria à OpenAI para transcrever meus podcasts, mas nem precisei. Consigo fazer local, com dois palitos, num carnaval em que quase não fiquei no computador.

Esse é o século do software. Até 2000, todos os processos eram manuais: centenas, milhares de pessoas para fazer os trabalhos. Lembro da gente questionando como naquela corretora faziam no passado: como estar condizente com todas as regulamentações necessárias mundo afora sem um software para cuidar disso?

Imagina que todo mundo vai ter o próprio software para chamar de seu. O Claude gerou 142 scripts para mim, só numa semana. Eu estava deletando, mas decidi começar a guardar. Isso tudo seria feito por programadores, ou nem seria feito. Muita coisa idiota, é verdade. Pedi para ele gerar tags para todos os meus planos de execução para que eu possa encontrá-los no Obsidian. Eu jamais faria isso se não fosse fácil. Iam empilhar como tudo que tenho anotado. De repente, ficou acessível novamente.

Quem cuida do core?

O que vai valer é o centro de negócio, o DDD da coisa. Quem souber ler isso e se vender dessa forma vai ter vantagem. O empresário médio vai fingir que é descartável até tomar uma carcada da entidade reguladora (basta perguntar a qualquer corretora de valores o que acontece quando o Bacen bate na porta).

Os próximos anos vão ter vários fiascos de software em produção. A última versão do Windows 11 é intragável. Eu tive que pegar o beta do iOS pois a última versão está bizarra de lenta. Mais 3-5 anos?

Passada essa fase, quem não usar IA vai ser que nem dev que não usa controle de versão hoje.

Se o software é de “graça”, a pessoa que consegue discernir entre o que pode ser feito e o que não pode é que tem valor. Onde a IA sempre erra? O que vamos tentar para resolver o problema X? O que é gambiarra temporária e o que vai ser core? O que era temporário e virou core para o negócio? Como incorporar isso sem quebrar quem depende? Qual feature vamos desligar pois não vale a pena?

Enquanto a empresa se move rápido, quem cuida do core? Quem monitora o que não pode cair? Quais serão os próximos cores? O que é regulamentado hoje pode dar uma resposta para isso: saúde, bancos, impostos, alimentos, cadeias de suprimento, energia. Os de sempre.


T L Si - Thiago Silva
Moy Chi Yau Si
梅 知 友 士

Fontes

  1. Software Disenchantment — Nikita Prokopov [article]
  2. Measuring the Impact of Early-2025 AI on Experienced Open-Source Developer Productivity — METR [research]
  3. Is software getting worse? [article]
  4. When Using AI Leads to 'Brain Fry' [article]
  5. AI vs Gen Z: Junior Developer Impact [article]
  6. Vibe coding (post original) — Andrej Karpathy [article]
  7. Software Becomes Disposable? — Christina Lin [article]
  8. Why Domain-Driven Design Still Matters in the Age of Generative AI [article]
  9. AI Copilot Code Quality 2025 Research — GitClear [research]